segunda-feira, 18 de maio de 2020

Sobre os Destroços de Nós I















"[...] O mal que os homens fazem sobrevive depois deles, o bem é quase sempre enterrado com seus ossos". 
- Marco Antônio na peça 'Júlio Cesar', de Shakespeare.

Transformando igrejas de Bagé em bibliotecas




Há alguns anos li em um jornal da cidade de Bagé que faltavam interessados em administrar a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, nessa mesma localidade. Pensei comigo: Como isso é possível? Bem, não é problema meu os descaminhos da igreja católica e, assim que entendi o problema de modo geral, eu realizei a minha proposta: Transformem o local em uma biblioteca. Era uma provocação, claro. Mas não tão despropositada. Tão logo a enunciei por ai sem a menor repercussão, me coloquei a imaginar uma enorme biblioteca temática. Uma biblioteca direcionada para livros especializados em arte e literatura – Por que não toda a coleção da editora Cosac Naify? –, com os longos bancos cedendo espaço às estantes, espaços diminutos entre elas dificultando olhares curiosos sob os livros nas prateleiras inferiores. Um bibliotecário inteligente – coisa rara, eu sei. – no balcão do órgão catalogando novos livros. O altar preservado como ambiente de rodas de conversas e debates. A sacristia como o espaço dos livros raros. As portas dianteiras refrescando o ambiente nos verões quentes da cidade de Bagé. E por que não aproveitar a acústica para realizar concertos? Quem sabe audições comentadas com músicos talentosos de todo o Brasil e Uruguai. As portas sempre abertas. O horário de funcionamento adentrando o avançar da noite. As conversas dos frequentadores se expandindo pela Praça Esporte e terminando nos quiosques entre cervejas e pastéis.  Por que não? É possível. É distante, porém possível. Minha imaginação e o pouco que pude apreender sabem que é possível. A possibilidade, no entanto, desaparece ao vento como minhas palavras. Por ora, só parece ser possível a missa com os padres incultos de sempre, sermões medíocres para até o mais desatento dos fiéis, e a velha pintora carola reclamando pela construção de uma concha acústica na praça em frente à igreja.  Para ela, um bizarro constructo a obliterar a magnitude de seu conservadorismo sustentado em latifúndios, explorações e ossos despedaçados por guerras infames.
Diante do real, eu prefiro minha biblioteca a impulsionar conversações criativas.

domingo, 30 de junho de 2019

O que sobrou? Confissões que não importam a ninguém



Havia criado este blog para dar continuidade a uma velha ideia de ir comentando coisas que me incomodam e, sobretudo, perturbam na vida. Obviamente, eu queria que essas coisas fossem do âmbito público, que pudessem, por ventura, estar perturbando muitas outras pessoas. Com o tempo meu ânimo me dissuadiu pelo fato de eu não poder lançar senão mais senso comum em aspectos do cotidiano do que alguma visão particular. Os meus limites estão postos logo ali na frente. Percebo-os cada vez mais e o que me aflige é não ter a oportunidade de estar em outros contextos para que possa superá-los minimamente.  Como poderia fazer isso? Bem, eu tenho minhas preferências, é claro. Seria podendo frequentar contextos artísticos: boas peças de teatro, ver bons filmes, escutar boas apresentações e estudar com rigor e conviver com pessoas apaixonadas por aquilo que estudam ou sentem alguma ligação de ordem da curiosidade. Estar no RS, preso por questões econômicas logo na metade mais pobre desse estado - não que a região mais próspera tenha muita vantagem além de um provincianismo artístico autofágico - tem me criado a sensação de estar morrendo intelectualmente e, nos últimos tempos, fisicamente também. Vejo meu tempo passar sem parar e nenhum futuro pela frente. Muito menos o futuro que eu tanto almejei. A sensação é de estar num processo de morte precoce. Antes do ponto final propriamente dito. 
Por essa razão creio que não poderei fazer desse espaço senão algo entre um diário de confissões e comentários sobre problemas da sociedade que me incomodam. Não tenho a acrescentar nenhum ponto de vista novo ou inusitado, privilegiado que possa interessar um possível leitor. Também duvido que os possa ter. Se algum aqui aparecer: Seja bem-vindo. Considero meio pretensioso ficar escrevendo sobre si mesmo, mas, não tendo nada além de minhas próprias experiências, o que mais poderia escrever? Nada sei e, no estado em que me encontro, nada saberei por muito tempo. Para além da autorreferencialidade dominante dessa contemporaneidade nossa, tentarei por a imaginação para funcionar sempre que for possível nesse espaço.  Esperemos que eu consiga já que não tenho lá grandes experiências também. 
Salut.
Obs: Esperemos que dessa vez consigamos manter alguma regularidade aqui.

terça-feira, 4 de julho de 2017