Há
alguns anos li em um jornal da cidade de Bagé que faltavam interessados em
administrar a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, nessa mesma localidade. Pensei
comigo: Como isso é possível? Bem, não é problema meu os descaminhos da igreja
católica e, assim que entendi o problema de modo geral, eu realizei a minha
proposta: Transformem o local em uma biblioteca. Era uma provocação, claro. Mas
não tão despropositada. Tão logo a enunciei por ai sem a menor repercussão, me
coloquei a imaginar uma enorme biblioteca temática. Uma biblioteca direcionada
para livros especializados em arte e literatura – Por que não toda a coleção da
editora Cosac Naify? –, com os longos bancos cedendo espaço às estantes, espaços
diminutos entre elas dificultando olhares curiosos sob os livros nas
prateleiras inferiores. Um bibliotecário inteligente – coisa rara, eu sei. – no
balcão do órgão catalogando novos livros. O altar preservado como ambiente de rodas
de conversas e debates. A sacristia como o espaço dos livros raros. As portas
dianteiras refrescando o ambiente nos verões quentes da cidade de Bagé. E por
que não aproveitar a acústica para realizar concertos? Quem sabe audições
comentadas com músicos talentosos de todo o Brasil e Uruguai. As portas sempre
abertas. O horário de funcionamento adentrando o avançar da noite. As conversas
dos frequentadores se expandindo pela Praça Esporte e terminando nos quiosques
entre cervejas e pastéis. Por que não? É
possível. É distante, porém possível. Minha imaginação e o pouco que pude
apreender sabem que é possível. A possibilidade, no entanto, desaparece ao
vento como minhas palavras. Por ora, só parece ser possível a missa com os
padres incultos de sempre, sermões medíocres para até o mais desatento dos
fiéis, e a velha pintora carola reclamando pela construção de uma concha
acústica na praça em frente à igreja. Para
ela, um bizarro constructo a obliterar a magnitude de seu conservadorismo
sustentado em latifúndios, explorações e ossos despedaçados por guerras
infames.
Diante
do real, eu prefiro minha biblioteca a impulsionar conversações criativas.